A gravidez é uma experiência única para cada mulher. Ao longo da gestação, o corpo passa por diversas transformações para sustentar o desenvolvimento do bebê, algumas visíveis, outras mais silenciosas, e a nutrição tem um papel fundamental nesse processo.
Do ponto de vista fisiológico, a gestação é, primeiro de tudo, um processo de adaptação metabólica progressiva, no qual, nesse período, o organismo materno passa a priorizar o crescimento e o desenvolvimento fetal sem deixar de preservar sua própria saúde¹.
Para que isso aconteça, o corpo precisa de energia, mas, sobretudo, de nutrientes específicos, em quantidades adequadas e respeitando o momento certo.
Por isso, as necessidades nutricionais na gravidez não são fixas: elas mudam ao longo do tempo, de mulher para mulher, e acompanham o ritmo da gestação individual.
Nutrição na gravidez: qualidade é mais importante que quantidade
Durante a gravidez, a qualidade da alimentação é mais importante do que simplesmente comer mais¹. O foco deve estar no equilíbrio entre macro e micronutrientes, garantindo que o organismo receba o suporte necessário para uma gestação saudável.
A qualidade da alimentação, o equilíbrio entre macro e micronutrientes e o acompanhamento do estado nutricional são mais importantes do que a quantidade para uma boa gestação.
Desde o início do pré-natal, a avaliação nutricional é essencial para identificar possíveis deficiências ou riscos relacionados à ingestão inadequada de nutrientes como ácido fólico, ferro e cálcio, que exercem papéis distintos ao longo dos trimestres¹.
Esse cuidado não é pontual: ele acompanha toda a gestação, ajustando-se às transformações fisiológicas que acontecem com o corpo da mulher ao longo das fases¹.
Vamos conhecer mais a fundo cada uma das fases e por que elas têm focos nutricionais diferentes?
Primeiro trimestre: tudo começa a mudar

No primeiro trimestre, mesmo quando a gravidez ainda não é visível, o corpo já está em atividade intensa. É nesse período que começa a organogênese: a formação dos principais órgãos e sistemas do embrião¹.
Aqui, o ácido fólico assume papel central. O ácido fólico auxilia na formação do tubo neural do feto durante a gravidez, sendo importante para os processos iniciais do desenvolvimento embrionário. Deficiências nutricionais nesse momento podem interferir no desenvolvimento embrionário, o que torna essencial a avaliação nutricional precoce¹.
Além disso, sintomas como náuseas, vômitos e alterações no apetite são comuns e podem dificultar a ingestão alimentar adequada. Por isso, o início do acompanhamento pré-natal é um momento estratégico para identificar carências nutricionais prévias ou que possam surgir nesse período, permitindo intervenções seguras e individualizadas¹,².
Segundo trimestre: crescimento acelerado e com novas demandas

Com o avanço da gestação, o segundo trimestre costuma trazer mais estabilidade clínica. Enquanto isso, o crescimento fetal se intensifica, aumentando as demandas metabólicas do organismo materno¹.
Nesse momento, o ferro ganha destaque. À medida que o volume sanguíneo materno se expande e as necessidades do feto aumentam, a adequação desse nutriente torna-se fundamental. Durante a gestação, a anemia gestacional é uma condição que pode ocorrer nesse contexto e requer acompanhamento adequado. Nesse sentido, o ferro auxilia na formação das células vermelhas do sangue e no transporte do oxigênio no organismo, além de auxiliar no processo de divisão celular, atendendo às demandas aumentadas desse período.
O acompanhamento nutricional contínuo permite ajustar a alimentação e, quando necessário, a suplementação, sempre com base na avaliação clínica¹.
O seguimento regular do pré-natal possibilita observar essas mudanças ao longo do tempo e realizar ajustes precoces, fortalecendo a saúde da gestante e favorecendo o desenvolvimento fetal².
Terceiro trimestre: se fortalecer, se proteger e se preparar

No terceiro trimestre, o bebê cresce rapidamente e o corpo materno entra em fase de preparação para o parto. É também um período em que algumas condições exigem atenção especial, como a pré-eclâmpsia.
Nesse contexto, o cálcio torna-se um nutriente-chave. O cálcio auxilia na formação e manutenção de ossos e dentes, além de auxiliar no funcionamento muscular e no processo de divisão celular, atendendo às demandas aumentadas da gestação. Com base em evidências científicas, passou a ser recomendada a suplementação de cálcio para gestantes, iniciada a partir da 12ª semana de gestação e mantida até o parto³, especialmente em situações em que a ingestão alimentar de cálcio é insuficiente. Essa recomendação está associada à redução do risco de pré-eclâmpsia descrita na literatura³.
Ao final da gestação, o cuidado nutricional permanece integrado ao acompanhamento clínico, considerando o estado nutricional, a pressão arterial e o bem-estar materno¹. As decisões sobre suplementação devem ser individualizadas, evitando o uso indiscriminado e respeitando as necessidades reais de cada gestante¹.
A importância da nutrição para além da gravidez
Não existe uma única forma de viver a gravidez, nem um padrão nutricional que funcione igualmente para todas¹,². A nutrição faz parte de um cuidado contínuo, que acompanha a mulher ao longo de toda a gestação e se adapta às exigências de cada fase.
E deve ser levado adiante, pois pensar na nutrição (e no acompanhamento nutricional) como base para o cuidado da saúde é um excelente estilo de vida, que te levará eventualmente ao puerpério com condições boas de saúde, com maior entendimento sobre você mesma.
Referências Bibliográficas
1 FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Nutrição na gravidez. Protocolos da Coleção 2024–2025. São Paulo: FEBRASGO, 2024. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/images/pec/CNE_pdfs/fps2024/Protocolos%20cole%C3%A7%C3%A3o%202024-2025/n15%20-%20O%20-%20Nutri%C3%A7%C3%A3o%20na%20gravidez.pdf
. Acesso em: jan. 2026.
2 BRASIL. Ministério da Saúde. Gravidez. Brasília: Ministério da Saúde, s.d. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/g/gravidez
. Acesso em: jan. 2026.
3 BRASIL. Ministério da Saúde. Em estratégia contra a pré-eclâmpsia, suplementação de cálcio passa a ser universal para gestantes. Brasília: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/fevereiro/em-estrategia-contra-a-pre-eclampsia-suplementacao-de-calcio-passa-a-ser-universal-para-gestantes
. Acesso em: jan. 2026.